O presente estudo ressalta as relações entre imagem corporal e dança, à medida que esta atividade repercute nos âmbitos motores e emocionais, e pode ser experimentada por pessoas com ou sem comprometimentos físicos e mentais, enquanto prática artística, de saúde e lazer.

O termo ‘dança’ traz à mente uma obra a ser assistida por uma platéia. No entanto, antes de ser um entretenimento, nas sociedades tradicionais, a dança fazia parte de rituais nos quais música, religião e arte constituíam um todo indivisível. Somente em períodos mais recentes da História, este sentido arcaico tem dado lugar a um privilégio de bailarinos profissionais. Uma das grandes dificuldades encontradas por um professor de dança, ao expor a importância desta atividade, por exemplo, para usuários de cadeira de rodas e pessoas com outros tipos de comprometimentos, reside no fato de que, no imaginário de nossa sociedade, a dança confunde-se com virtuosismo do corpo.

Deste modo, não tratamos aqui apenas de espetáculos, mas sim, da dança enquanto a manifestação das infinitas qualidades que o ser humano pode expressar com seu movimento, independentemente de suas capacidades e limitações. É neste sentido que a dança pode oferecer uma contribuição positiva no que diz respeito à imagem corporal do sujeito que dança.

O conceito de imagem corporal, conforme vem sendo concebido, foi formulado em 1935, por Schilder, psiquiatra austríaco que ressaltou a importância desse fenômeno, levando em consideração seus aspectos fisiológicos, psicológicos e sócio-culturais. Segundo ele, imagem corporal é a ‘representação de nosso corpo que formamos em nossa mente’ (Schilder, 1994).

Por um lado, as descobertas no campo da neurologia são, indiscutivelmente, indispensáveis à compreensão deste fenômeno. Entretanto, quando se focaliza especificamente o aspecto neurofisiológico da percepção, a expressão utilizada usualmente é ‘esquema corporal’. A importância do trabalho de Schilder refere-se à sua abordagem inovadora acerca do tema, que ultrapassa uma análise linear e quantitativa, e os aspectos puramente neurológicos, muito enfatizados à sua época. A importância de seu trabalho deve-se a seu empenho em apresentar mais que um amontoado de conhecimentos de fisiologia, psicologia e sociologia, à medida que Schilder considerou o corpo um fenômeno essencialmente existencial, apresentando a imagem corporal de uma maneira sistêmica que não existia até então. Assim, ele tratou de assuntos diversos, tais como beleza, ginástica, psicologia da moda, dor, distúrbios psíquicos e, evidentemente, dança (Tavares, 2003:15).

As relações entre imagem corporal e dança residem no fato desta atividade lidar com a percepção do corpo, de suas possibilidades, além das noções de forma, volume, textura, peso, direção... O movimento que brota desta ‘tomada de consciência de si’ difere qualitativamente daquele executado de maneira mecânica, pois se manifesta sob uma atitude de pesquisa, busca e descoberta no ‘aqui e agora’.

Antes de mencionar os elementos que embasam esta abordagem, convém recordar a figura revolucionária de Isadora Duncan (1877,1927): numa época dominada pelo adestramento estéril do balé romântico, ela concebia a dança pela simplicidade e a beleza dos movimentos da natureza, trazendo assim a idéia de que todos são capazes de dançar

Marta Peres
Crefito: 48876F
Professora Adjunta do Departamento de Arte Corporal da Escola de Educação Física e
Desportos da UFRJ

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